A Casa da Deise Maria

a sua Neuropsicanalista Clínica

Eriktonfobia

22/03/2026 08:20
Estamos vivendo um momento em que a linguagem deixou de ser apenas um meio de comunicação e passou a ser também um campo de disputa psíquica e social. Quando uma mulher biológica sente que precisa se redefinir para ser reconhecida — por exemplo, sendo chamada de “cis” — algo toca diretamente na constituição da identidade. Na psicanálise, sabemos que o nome, a forma como o sujeito se inscreve na linguagem, não é neutra, ela organiza o lugar que ele ocupa no mundo. O incômodo de muitas mulheres não é, necessariamente, a existência do outro, mas a sensação de perda de lugar, como se, de repente, aquilo que sempre foi vivido como natural precisasse ser justificado, nomeado, explicado, mas talvez a pergunta mais profunda não esteja nas respostas prontas e sim nas perguntas que evitamos fazer com receio de incorrer em más interpretações: será que as mulheres biológicas querem o apagamento das mulheres trans? Será que as mulheres trans querem o apagamento das mulheres biológicas? Será possível a mulher trans obter os mesmos direitos da biológica? Se sim, isso necessariamente acarretaria perda de identidade… ou estamos diante de um medo psíquico de dissolução do lugar? Por outro lado, também vemos sujeitos que lutam por reconhecimento, por pertencimento, por um lugar simbólico que historicamente lhes foi negado e isso também não pode ser ignorado. O que falta e talvez seja o ponto mais crítico desse cenário, é a possibilidade de diálogo. Quando não há escuta, o que surge é o radicalismo e o radicalismo, na leitura psicanalítica, muitas vezes é uma defesa — uma tentativa de proteger algo que está ameaçado internamente. Mulheres que se sentem apagadas. Pessoas trans que se sentem invalidadas. Duas dores diferentes que acabam se chocando porque não encontram espaço de simbolização. A disputa, então, deixa de ser apenas social e passa a ser subjetiva e quando o sujeito não consegue falar, reage.Talvez o caminho não esteja em impor nomes, nem em silenciar incômodos, mas em sustentar algo que está cada vez mais raro: a escuta, porque é nela que o sujeito existe e é fora dela que ele entra em guerra. Deise Maria Neuropsicanalista Clínica