Misantropia
Durante o jogo da Seleção, enquanto milhares de pessoas estavam reunidas em bares, casas e espaços públicos compartilhando um momento de lazer e pertencimento, uma mensagem falsa surgiu em diversos celulares: um suposto alerta extremo da Defesa Civil. Em poucos segundos, aquilo que deveria ser uma noite de descontração transformou-se em inquietação, dúvida e medo para muitas pessoas.
Do ponto de vista psicológico, esse tipo de ação revela algo inquietante sobre quem a produz. O objetivo não é informar, mas provocar uma reação emocional intensa. O hacker não invade apenas sistemas tecnológicos; ele invade a sensação de segurança coletiva. Ao disparar uma mensagem alarmante em um momento de grande audiência, ele utiliza o medo como ferramenta de poder.
A psicanálise nos ajuda a compreender que alguns sujeitos encontram satisfação em produzir desordem. Não se trata apenas de uma questão técnica ou criminosa, mas também subjetiva. Há indivíduos que experimentam uma sensação de controle ao perceber que conseguem afetar milhares de pessoas ao mesmo tempo. O caos provocado torna-se uma espécie de demonstração de poder: "eu consigo interromper a tranquilidade de todos".
Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), escreveu que "o homem não é uma criatura gentil que deseja ser amada e que, no máximo, pode defender-se quando atacada; pelo contrário, deve incluir entre seus dotes instintivos uma poderosa quota de agressividade". Essa observação nos ajuda a compreender que a capacidade de destruir, perturbar ou causar sofrimento não é algo estranho à condição humana. Quando alguém decide espalhar pânico deliberadamente por meio de uma falsa mensagem de emergência, vemos a agressividade colocada em ação não para proteger ou transformar a realidade, mas para produzir medo e desorganização. O prazer obtido não está na construção de algo útil para a sociedade, mas na percepção de que foi possível afetar emocionalmente milhares de pessoas ao mesmo tempo.
Também é possível pensar em sujeitos que, movidos por ressentimento, sentimentos de exclusão ou necessidade de reconhecimento, buscam visibilidade por meio do impacto negativo. Se não conseguem ser vistos por suas realizações, tentam ser notados pela capacidade de gerar confusão. O medo coletivo torna-se, então, uma forma distorcida de chamar atenção.
O mais preocupante é que essas ações exploram uma característica humana fundamental: nossa tendência a reagir rapidamente diante de ameaças. O hacker sabe que uma mensagem alarmante enviada durante um evento de grande audiência terá enorme potencial de propagação. Em poucos minutos, a dúvida se espalha, as pessoas compartilham informações sem confirmação e o pânico encontra terreno fértil.
Talvez a grande reflexão seja esta: enquanto a tecnologia avança, a responsabilidade ética nem sempre acompanha esse avanço. Ferramentas que poderiam aproximar pessoas, informar e proteger também podem ser utilizadas para alimentar angústias e desorganizar a vida coletiva. O verdadeiro desafio não é apenas proteger sistemas, mas fortalecer uma cultura que valorize a responsabilidade, o discernimento e o compromisso com o outro.
Porque, no fim, promover o caos não é sinal de inteligência superior. É a demonstração de uma profunda incapacidade de construir aquilo que sustenta a convivência humana: confiança, segurança e laço social.
Boa noite ???? ?
Deise Maria
Neuropsicanalista Clínica
