Moises
Já ouviu falar no mito do abandono?
Ele não começa com palavras e sim com uma sensação estranha de não pertencimento, de estar no lugar, mas não se sentir dentro dele, como se, em algum ponto da história, algo tivesse se rompido — mesmo que ninguém tenha explicado, mesmo que ninguém tenha nomeado.
Na leitura de Sigmund Freud em Moisés e o Monoteísmo, vemos Moisés como alguém que foi separado de sua origem, criado fora do seu povo, atravessado por um deslocamento profundo e isso não é só sobre ele, é sobre muitos de nós, porque o abandono nem sempre é físico, ele pode acontecer no olhar que não veio, no afeto que faltou, na presença que não sustentou e o que a criança faz com isso?
Ela não entende, somente sente e, sem perceber, cria uma verdade interna - “eu não fui escolhido”, “algo em mim não foi suficiente”.
Essa verdade vira raiz e, na vida adulta, começa a florescer de formas que doem, na necessidade de agradar o tempo todo, no medo de ser deixado,
na repetição de relações onde o abandono se confirma, ou até no afastamento emocional, como defesa.
Essa dor atravessa por Moisés não é “exagero”, o cérebro registra o abandono como ameaça real, ativando circuitos de dor e sobrevivência, ou seja, o corpo também lembra daquilo que a mente tentou esquecer.
Mas existe um caminho - análise.
Quando o sujeito começa a olhar para sua história com mais verdade, algo muda e começa, aos poucos, a se reposicionar no presente. O abandono pode ter existido, mas ele não precisa continuar decidindo tudo e talvez, hoje, a pergunta que fica seja essa: em que momentos da sua vida você ainda está tentando não ser deixado?
Deise Maria
Neuropsicanalista Clínica
